O jovem policial

Este artigo de Lya Luft, publicado na Veja dessa semana. (23JAN08) . Sargento PM Carlos.

O jovem policial

“Se fôssemos um país mais educado, menos policiais morreriam por nós, menos cidadãos seriam assaltados e mortos, menos jovens se tornariam malfeitores, menos força teriam os narcotraficantes”.

Eu estava botando gasolina no tanque de meu carro e do meu lado estavam dois carros da Brigada Militar. Dois policiais falavam com alguém do posto. Um terceiro, bem junto da minha janela, de costas para mim, portava uma arma grande, que na minha ignorância acho que poderia ser um fuzil ou uma metralhadora. Estava ali, sozinho, e comecei a observá-lo sem que me notasse. Tenso, alerta, consciente de sua missão, olhava para os lados empunhando sua arma com o cano voltado para baixo. Seu rosto era jovem, tão jovem que me comovi. Podia ser meu filho. Mais: podia ser meu neto. Estava tão concentrado no seu dever, tão alerta na sua posição, que fiquei imaginando se, ou quando, ele poderia levar um tiro de algum bandido. Poderia ficar lesado gravemente. Poderia morrer. Por mim, por você, por um de nós, em qualquer parte do Brasil, não importa que nome se dê à sua corporação nem se é da guarda estadual, municipal, federal. Esses jovens se expõem por nós. Morrem por nós. Tentam, num país tão confuso, proteger o cidadão. A gente realmente pensa nisso? Uma vez ao dia, uma vez por semana, uma vez ao mês?

Ilustração Atômica Studio

Tentei imaginar também como eu me sentiria se um de meus netos tivesse essa profissão. Que suspiro de alívio a cada noite, ou a cada manhã, sabendo que ele estava em casa. Que angústia sempre que se noticiasse uma perseguição, um tiroteio. Quanto ganha para se expor assim um rapaz desses? Esse tinha na mão esquerda uma fina aliança. Podia ter filhos, com certeza muito pequenos, dada sua pouca idade. Que vida a de milhares de famílias, em troca, penso eu, de uma compensação financeira diminuta.

Impressionada com sua seriedade, com a realidade concreta daquela arma enorme, e com quanto de repente me senti em dívida com aquele quase menino, teimei em adivinhar: quanto ganharia ele? Tanto quanto uma boa empregada doméstica, que não arrisca a vida embora seja importantíssima numa casa bem organizada onde a valorizam? Tanto quanto uma professora de escola elementar, que vende quinquilharias ou doces feitos em casa para colegas no intervalo das aulas, a fim de se sustentar?

Tanque cheio, saí rodando, pensativa: a educação e a segurança são o primeiro eixo da vida de um país digno. Elas e outros tantos fatores. Mas eu, naquele dia, quis pensar em educação e segurança. Com elas gastam-se quilômetros de papel e uma eternidade em falação. Se fôssemos um país mais educado, menos policiais morreriam por nós, com certeza menos cidadãos seriam assaltados, violentados e mortos, menos jovens se tornariam malfeitores, menos força teriam os narcotraficantes. Menos jovens de classe média alta se matariam nas estradas ou venderiam drogas mortais a seus colegas nas escolas ou nos bares.

O problema, o dilema, a tragédia é saber por onde começar: educação começa em casa. Mas, diz um psicólogo amigo meu, os meninos (e meninas) problemáticos (aqui não falo dos saudáveis, que constroem uma vida) em geral não têm pai ou mãe em casa, e têm poucos modelos bons a seguir. Nas escolas, professores e professoras são mal pagos, desestimulados, sobrecarregados e desanimados (não todos, portanto não me xinguem por isso). Nesse caso, a educação deveria começar pelo alto: pelas autoridades, pelos políticos, pelos líderes. Não posso dizer que o Brasil está sendo brindado com uma maioria de políticos modelares, de líderes positivos, de autoridades de atitude impecável.

Então vivemos um dilema triste: começar por baixo, pela faixa etária menor, pela educação em casa e nos primeiros anos na escola, ou começar a reformar a mentalidade dos altos escalões, nos quais alguns líderes se destacam pela autoridade moral e elevada postura, mas a maioria, sinto muito, está longe disso?

Não creio que haja resposta. Eu não a tenho. Quem a tiver que sugira aos governos, ou aos pais, ou aos colégios. De momento, parece-me que estamos apenas despertando para essa questão crucial, sem a qual nada se fará de importante neste nosso país das utopias.

Lya Luft é escritora

4 comentários em “O jovem policial

  1. Todos nós temos sonhos, mas transformá-los em realidade é uma grande luta, a Polícia Militar do Estado de Mato Grosso, tem hoje, homens e mulheres que buscam mudar a imagem distorcida que uma parte da sociedade tem da policia, é lógico que esta imagem foi criada ao longo dos tempos com ações que não eram compatíveis com o policiamento socialmente correto. Por isso é que a nova geração desta gloriosa corporação busca ações que possam mudar essa imagem, e não é preciso inventar nada, e sim, fazer o que a sociedade espera de nós, o nosso serviço, lembrando que nós policiais fazemos parte desta sociedade, somos parte integrante da comunidade, sendo fundamental ampliar o dialogo entre membros da policia e da população.

  2. A população reconhece o caráter profissional e a responsabilidade da policia, porém o desempenho policial não é conhecido por todos, as boas e corretas ações policiais não são divulgadas com a ênfase necessária, mas sim o vírus demolidor: violência, corrupção, vicio e incompetência, que tem se espalhado em nosso meio, levando a instituição ao descrédito público, ainda que estas ações sejam feitas por uma parcela muito pequena de policiais, mas causam grandes manchas nas nossas fardas.
    Conclamo a sociedade a verificar mais a fundo o atendimento que a policia presta a comunidade. Policia esta que atende a todo tipo de ocorrência, desde um simples conselho a um filho que não esta indo a escola, uma discussão entre vizinhos ou um atendimento de emergência, onde uma mulher esta dando a luz, estes são atendimentos que nos deixam emocionados, mas este é o papel de outras instituições, que não o fazem e desta forma nos sobrecarregam, a população nos chama para tudo, pois o 190 é o socorro mais próximo e é o que ela tem acesso sem pagar nada.
    A nossa grande satisfação esta no fato de proteger a sociedade e salvar pessoas nas mais diferentes situações de dificuldades, peço à população que busque conhecer a sua policia, conversar com os policiais e saber o que fazemos na verdade, pois o mais importante para nós é poder satisfazer a você cidadão.

  3. A senhora quando abastecia o carro, viu o jovem policial, imaginou quanto recebia pelo ariscado trabalho, entretanto se a senhora soltasse um pouco mais a imaginação, veria que ele é um vitorioso! Quantos na idade dele estão jogados pelas ruas do País, sem amparo, sem a presença do Estado, a mercê dos traficantes e de toda sorte de violência, buscando no lixo o seu sustento. Meninas pré adolescentes que vendem seus mirrados corpos por míseros reais, para depois entregar o macabro faturamento aos traficantes. Poderíamos dá um futuro melhor a esses jovens, pagar melhores salários aos policiais, professores, médicos, e outros profissionais que estão diretamente envolvidos com o desenvolvimento humano, se estripássemos da sociedade os políticos e empresários corruptos, esses sim são o grande mal que destroem esperanças e sonhos de nossos jovens. Um relatório recente do FMI, concluiu que se o nível de corrupção no Brasil chegasse ao um patamar aceitável, os recursos destinados ao DH chegariam ao seu destino. Então, a senhora quando fosse abastecer o carro, veria o jovem policial, mas também observaria que não estaria portando um fuzil ou metralhadora, e que apenas estava ali para marcar a presença do Estado. A senhora o complementaria sem nenhum receio, não imaginaria quanto ganhava, pois saberia que seu salário era digno de sua função, e que ele também teria um bom plano de saúde e de previdência. A senhora poderia ir para casa sem medo das esquinas ao parar nos semáforos.

  4. Fiquei muito feliz com o comentário que a senhora fez pois nunca pensei, sendo policial, que algéum um dia pudesse ter uma visão assim. Geralmente as pessoas criticam e não tem a sensibilidade que a senhora teve. Senti-me muito feliz e valorizado. Obrigado e que Deus a abençoe.Cabo Wagner-24a Cia ind PMMG.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s