A discriminação do Bolsa-Copa.

Merece avaliação que não se limite às boas intenções a chamada Bolsa-Copa, como foi denominado o adicional de salário que o governo federal se propõe pagar a quadros da área de segurança envolvidos com a Copa do Mundo de 2014. A proposta de melhor remunerar policiais militares e civis, bombeiros e membros das guardas municipais de 12 capitais é discriminatória, por melhores que sejam os argumentos dos idealizadores do programa.

O objetivo do governo federal seria o de assegurar boa remuneração a profissionais dedicados a tarefas públicas decisivas para o sucesso do evento. Pressupõe o governo que policiais bem pagos oferecerão, como contrapartida, serviços mais qualificados, o que de fato pode ocorrer. O debate, já deflagrado por setores da segurança, leva em conta, além dos benefícios, os constrangimentos que tal iniciativa provoca. Discriminam-se os profissionais que não participarem dos preparativos e de outras atribuições durante a competição.

O adicional, que pode chegar a R$ 1 mil mensais e deve ser incorporado aos vencimentos ao final da competição, pode significar, em muitos casos, que policiais mal remunerados receberão o dobro dos salários. O constrangimento se dará já a partir da escolha dos que trabalharão na Copa. Os indicados, mesmo que os critérios sejam os mais justos, se transformarão numa classe à parte em meio a contingentes invariavelmente insatisfeitos com o que percebem.

O Bolsa-Copa será adotado voluntariamente por Estados que aderirem ao programa, e o governo federal estima que até 230 mil profissionais devem ser beneficiados por uma verba prevista de R$ 1,4 bilhão. Por mais que o grande evento do futebol mundial mereça tratamento especial, será difícil argumentar, para quem corre riscos em enfrentamentos cotidianos com a criminalidade, que sua atividade é menos nobre do que a segurança de um estádio. Os governos, tanto o federal quanto os estaduais, deveriam agir não só pontualmente, como parece ser o caso, e trabalhar no sentido de melhor preparar e remunerar as polícias para todas as tarefas que desempenham, e não só quando o que está em jogo é a boa imagem do país.

Esperamos que o governo reveja os seus planos e ofereça a todos o profissionais de segurança, um salário digno a todos e não somente a uma parcela, pois isso será uma ação que trará prejuízos ao governo, aos agentes e a sociedade em geral.

Fonte: http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2791339.xml&template=3898.dwt&edition=13995&section=1011