O pecado da ingenuidade.

A polícia acaba de prender mais um estelionatário digital. Muito jovem, 19 anos, já percebera que as pessoas tendem a acreditar no meio e esquecem a mensagem.

Se saiu na TV, no rádio, no jornal, na revista, na internet, então, para elas, é verdade incontestável. Esquecem-se de que alguém como elas aproveitou-se do computador, da câmera, do microfone ou do papel, para, talvez, passar uma mentira. O estelionatário em questão, de Foz do Iguaçu, passava-se por bom partido, milionário, e cortejava mulheres internautas. Por fim, pedia a elas um dinheiro de emergência e, com isso, arrecadou no mínimo R$ 60mil, segundo a polícia. Valeu-se da ingenuidade de outrem.

Ingenuidade vira quase virtude quando recebe o nome de boa-fé nos códigos legais. Mas é um pecado, às vezes mortal. A virtude é ser cético, ou seja, aquele que duvida, até que a razão lhe demonstre a realidade. Se fôssemos eleitores céticos, desconfiados, que puséssemos em dúvida os candidatos, certamente não seríamos enganados, porque nossa escolha seria feita por eliminação, até que o raciocínio nos indicasse a opção. Por causa do pecado da ingenuidade eleitoral, pagamos preço pesado, inclusive com nossos impostos, e em troca temos péssimos serviços de educação, saúde e segurança pública, porque temos elegido legisladores e governantes que não sabem organizar e gerenciar o estado.

Agora leio no noticiário que a polícia dos Estados Unidos está no encalço de bispos brasileiros por lavagem de dinheiro trazido do Brasil, à razão de R$ 5 milhões por mês. Imaginem o quanto o pecado da ingenuidade tira das pessoas, que estão prontas a comprar um espaço no céu. Um taxista baiano, depois que passamos diante de um monumental templo religioso, me contou que o pai dele, ao morrer, deixara R$ 120 mil na poupança. O filho quis comprar um carro novo e pediu ajuda à mãe. A viúva explicou que já não tinha o dinheiro, porque pagara aos pastores uma garantia de que a alma do marido sairia do purgatório e iria para o paraíso. Lutero insurgiu-se contra isso em 1517, e a ingenuidade continua a sustentar o estelionato.

Os velhos truques se repetem infinitamente porque a ingenuidade se recusa a aprender com as lições. A ingenuidade se recusa a permitir que o cérebro aja como protetor da vida que mora naquele corpo. A ingenuidade pode ser uma característica de temperamento: os bons

acabam por ser usados pelos aproveitadores, como demonstra o psicanalista Flávio Gikowate. Além disso, a ingenuidade é filha da ignorância. A falta de conhecimento faz com que a pessoa não entenda o que está acontecendo e, para não passar por ignorante, aceita tudo e é enganada. Quando vejo anúncio de carrinho popular a 60 prestações de R$ 599 percebo logo que a pessoa vai pagar 36 mil – menos 60 reais – por um carro que vale menos da metade disso. O pecado da ingenuidade também custa caro. Mas nada se compara à ingenuidade diante da urna eleitoral. É pecado que pode resultar em quatro anos de inferno ou purgatório – e não há dinheiro que compre indulgência.

Alexandre Garcia é jornalista em Brasília e escreve em A Gazeta às terças-feiras. E-mail: alexgar@terra.com.br

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s